Mensagem recebida em 15/02/2015
DESLIGUE A TV. LIGUE-SE NA VIDA
Alfredo Pereira dos Santos
Duas experiências mudaram radicalmente a minha visão no que se refere
ao uso de televisão, computadores e videogames, principalmente por
parte de crianças. Uma delas foi a leitura do livro "A criança e a
TV", da médica e psicanalista argentina Raquel Soifer. A outra foi a
leitura dos textos do professor Valdemar Setzer, que estão disponíveis
na internet para quem quiser consultar.
Não é de hoje que se suspeita que haja alguma coisa errada com a TV. O
cronista Sérgio Porto, nos anos 60, referia-se a ela como "a máquina
de fazer doido" e o sociólogo Betinho a classificou como "a mais
fantástica máquina de imbecialização jamais criada". Outro sociólogo,
este norte-americano, Waldo Frank, disse que "a TV está formando
gerações de débeis".
A médica Raquel Soifer, contudo, vai mais longe, ao afirmar que a TV
cria problemas de dislalia, dislexia e disgrafia nas crianças. E mais:
a TV narcotiza essas crianças, predispondo- as ao consumo posterior de
drogas. Há no livro o depoimento de pesquisadores de MIT que afirmam
categoricamente que "as pessoas que, a partir dos anos 60, cresceram
diante da TV, não tem a inteligência das mais antigas." Eu imagino que
isto seja verdade, quando comparo as crianças de hoje com as do meu
tempo de garoto. Ressalto que falo com a visão de quem passou a
infância e a adolescência em Copacabana, na zona sul do Rio de
Janeiro, na década de 50. Naturalmente que os meninos de hoje sabem
muito mais em matéria de sacanagem do que os da minha geração. Em
compensação, perdem de dez a zero em matéria de raciocínio lógico,
inteligência e cultura. Eu só tenho uma explicação para isso: o longo
tempo que elas permanecem em frente a TV e vídeo games. Naturalmente
que algumas crianças escapam a esta triste sina quando os pais são
mais esclarecidos, como o Bill Gates, que afirmou: "os meus filhos
terão computadores, mas antes terão livros" e limitava o tempo deles
diante da TV a 45 minutos diários. Outras crianças escapam porque as
muitas atividades em que estão envolvidas (culturais, esportivas,
etc.) não lhes deixa muito tempo para ver TV.
Locke dizia que "não há nada no domínio da razão que não tenha passado
antes pelos sentidos". De minha parte, tenho dito que física e
matemática não se começa a aprender na escola, mas sim nas primeiras
brincadeiras infantis.
A minha má vontade com a TV não se refere apenas ao seu uso por parte
de crianças. Acho lamentável que muitas pessoas idosas levem uma vida
tão vazia e tão destituída de sentido que não conseguem se desgrudar
da TV, desperdiçando seus últimos anos de vida diante dela. E o que é
pior, acelerando o processo de sua própria decadência, como pesquisas
recentes revelam. É como se essas pessoas estivessem renunciando a uma
vida útil e ativa e ficassem aguardando o inevitável fim, como
condenados no corredor da morte.
Pode ser que nem tudo esteja perdido. A luta pelo desenvolvimento
exige competência e não se pode exigir tal coisa de uma geração de
iletrados. Desse modo os governos, por mais incompetentes que sejam,
vão perceber que alguma coisa precisa ser feita, que providências
precisam ser tomadas para elevar o nível cultural do povo,
incluindo-se ai as competências lógico-matemáticas.
Antes de tudo há que se conscientizar os pais. O problema que eles
também são viciados em TV, de modo que a luta será árdua.
Eu não chego a ser como o professor Valdemar Setzer, que evitou ter TV
em casa durante muitos anos, nem tenho filho pequeno que justifique a
retirada do aparelho, como fez um amigo meu, para evitar que o filho,
de quatro anos, seja prejudicado pela TV. Tenho um único aparelho que
uso para ver DVDs e, eventualmente, ver um ou outro programa de TV a
cabo. As vezes vale a pena, mas nunca fico muito tempo, pois acho que
existem coisas mais agradáveis de se fazer do que ficar parado vendo
TV. Gosto muito mais de escrever, por exemplo, como estou fazendo
agora.
Há poucos dias vi, no GNT, um programa que trata de uma experiência
levada a cabo por uma escola inglesa, e que consistiu na retirada de
aparelhos de TV, computadores e videogames, por duas semanas, dos
lares cujos pais concordaram em participar da experiência.
A escola esperava que o teste tivesse algum impacto no desempenho
escolar dos alunos, o que de fato houve, mas o impacto maior foi na
própria vida do lar e na relação entre as crianças e entre elas e seus
pais.
A primeira e importante conclusão foi: TV NÃO FAZ FALTA. As crianças
começaram a usar a imaginação nas suas brincadeiras e a jogar xadrez e
outros jogos e a brincar mais.
Uma coisa que ficou manifesta é que os pais, quando diziam que não
sabiam como as crianças iriam se sentir, na verdade estavam
preocupados com o que eles, pais, iriam sentir. Tratava-se, pois, de
mera projeção. Ficou claro que muitos pais usam a TV para controlar os
filhos (babá eletrônica) e sem ela eles precisariam mostrar que
estavam a altura do desafio de serem pais.
A retirada da TV e de outros aparelhos proporcionou uma maior
interação entre os membros da família. As crianças se acalmaram porque
passaram a receber mais atenção e o ambiente melhorou
consideravelmente.
Ao término da experiência em alguns casos o consumo da TV reduziu-se
em 50 por cento. Alguns pais resolveram tirar a TV dos quartos dos
filhos, bem como dos seus próprios quartos, conservando uma única TV
na sala para que todos pudessem vê-la conjuntamente.
Em suma, quando nos Estados Unidos alguns grupos começaram a fazer
campanha cujo slogan era DESLIGUE A TV. LIGUE-SE NA VIDA, eles sabiam
o que estavam dizendo.
O Brasil é um país onde as pessoas ficam muito tempo diante da TV. Não
por coincidência os nossos estudantes se saem muito mal em matemática,
ciências e idiomas quando comparados a estudantes de outros países.
Salta, pois, aos olhos que temos sido bastante estúpidos em relação a
esta questão, mas não há nenhuma razão para que continuemos a sê-lo,
indefinidamente.
Rio de Janeiro, 29 de março de 2008
A TV é um entorpecimento físico e mental constante (Valdemar Setzer).
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