quinta-feira, 19 de abril de 2018

Filosofia Volvo

Em 29/10/2011:
Filosofia Volvo - Não deixem de ler
“Pare de correr porque o fim chega mais depressa".

Texto escrito por um brasileiro que vive na Europa e trabalha na Volvo

Já vai para 18 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca.Trabalhar  com  eles  é  uma convivência, no mínimo, interessante.

Qualquer projeto aqui demora  2 anos para se concretizar, mesmo que a ideia seja brilhante e simples. É regra. Então, nos processos globais, nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada. 

Porém, nosso senso de  urgência não  surte  qualquer efeito neste 
prazo.
 
Os suecos  discutem, discutem, fazem  "n" reuniões, ponderações. 
E trabalham num esquema bem mais "Slow down". 

O pior é constatar que, no final, acaba  sempre  dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui. 

E vejo assim:

1. O país é do tamanho de São Paulo;
2. O país tem 2 milhões de habitantes;
3. Sua maior  cidade,  Estocolmo, tem  500.000  habitantes (compare com Curitiba, que tem 2 milhões);
4. Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare... Nada mal, não?
5. Para ter uma ideia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA.

Digo para os demais nestes nossos grupos globais: 
Os suecos podem estar errados, mas são eles que pagam nossos salários. Entretanto, vale salientar que não conheço um povo, como povo mesmo, que tenha mais cultura coletiva do que eles.
 
Vou contar para vocês uma breve só para dar noção:

 
A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos me 
pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio, nevasca. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro).  

No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro. Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã, perguntei: 

- Você tem lugar  demarcado  para  estacionar  aqui?
  Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e  você  deixa o carro lá no final.

E ele me respondeu simples assim: 

- É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar. Quem
 chegar mais tarde já vai estar  atrasado, melhor  que fique mais perto da porta. Você não acha?
 
Olha a minha  cara!  Ainda bem que  tive  esta  na  primeira. Deu 
para rever bastante os meus conceitos. 
Há um grande movimento na Europa hoje, chamado Slow Food.
A Slow Food  International  Association - cujo símbolo é um caracol, tem sua base na Itália (o site, é muito interessante. Veja-o!). 

O que o movimento  
Slow Food  prega  é que as pessoas devem comer  e  beber devagar, saboreando  os alimentos, "curtindo" seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade.

A ideia é a de se contrapor  ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida em que o 
americano endeusificou.

A surpresa, porém, é que esse  movimento  do Slow Food está servindo de  base  para  um  movimento mais amplo chamado Slow Europe como  salientou  a  revista  Business Week numa edição europeia. 

A base de tudo está no questionamento da "pressa" e da "loucura" gerada pela  globalização, pelo  apelo à  "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser".

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem  menos  horas (35 horas por semana )  são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que  em muitas  empresas  instituíram  uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%.

Essa chamada " 
Slow atitude"  está chamando a  atenção até dos  americanos,  apologistas  do "Fast" (rápido)  e do "Do it now" (faça já).

Portanto, essa  "atitude sem-pressa"  não significa fazer me-
nos, nem  ter  menor  produtividade.  Significa, sim,  fazer as
coisas  e  trabalhar  com mais "qualidade" e "produtividade"
com maior perfeição,  atenção  aos  detalhes  e com menos "
stress". 

Significa  retomar os valores da família, dos amigos,
 do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do "local", presente e concreto em contraposição ao  "global" - indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano,  dos pequenos  prazeres  do  cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé. 
Significa um ambiente de  trabalho  menos  coercitivo, mais alegre, mais  "leve"  e, portanto, mais produtivo onde seres 
humanos, felizes,  fazem com prazer,  o que sabem fazer de 
melhor.
 
Gostaria que você pensasse um pouco sobre isso... Será que 
os  velhos  ditados  "Devagar se  vai ao longe"  ou ainda " A pressa  é  inimiga  da perfeição"  não  merecem  novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura?

Será que nossas empresas não deveriam também pensar em
 programas sérios de  "qualidade sem pressa"  até  para aumentar a  produtividade e  qualidade de nossos  produtos  e serviços sem a necessária perda da "qualidade do ser"?
 
Para acabar, no filme "Perfume de Mulher", há uma cena inesquecível, em 
que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela responde: 

- Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos.
 
-
 Mas em um momento se vive uma vida! - responde ele, conduzindo-a num passo de tango. 

E esta pequena  cena é o momento mais bonito do filme.

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